Desvendando o Triângulo da Fraude
Por Alexandre Alcantara
Na rotina de auditoria e perícia contábil, frequentemente é normal se deparar com o desafio de entender o que leva indivíduos comuns a comprometerem a integridade de uma organização.
A base para essa compreensão reside em um conceito clássico desenvolvido em 1953 pelo sociólogo e criminologista americano Donald Cressey. Em sua obra “Other People’s Money: A Study in the Social Psychology of Embezzlement” (Dinheiro alheio: um estudo sobre a psicologia social do desfalque, sem versão em português.). Cressey — que foi aluno de Edwin Sutherland, o famoso criador do termo “crime de colarinho branco” — investigou a fundo os fatores que levam pessoas a cometerem peculato e quebras de confiança.
O resultado dessa investigação foi a formulação do Triângulo da Fraude, uma teoria que descreve três elementos fundamentais que precisam coexistir para que crimes financeiros corporativos aconteçam. Para o profissional de contabilidade forense, dominar esses três pilares é indispensável:
- Pressão (ou Motivação) Este é o ponto de partida, caracterizado por um estresse insustentável ou uma necessidade que muitas vezes o indivíduo considera “não compartilhável”. Essa pressão pode ter origem em uma dificuldade financeira real ou ser apenas percebida pelo fraudador, como a necessidade de financiar um vício. Além disso, necessidades não financeiras também servem como forte motivação, a exemplo de altas exigências de desempenho e metas profissionais rigorosas. É essa pressão psicológica ou financeira que impulsiona o sujeito a agir.
- Oportunidade O segundo pilar materializa-se quando o indivíduo percebe a existência de falhas nos controles internos e de segurança. Nas empresas, os funcionários inevitavelmente recebem acesso a ativos, pessoas, sistemas de computador e informações sensíveis para conseguirem desempenhar suas funções. O grande risco reside na percepção de que existe uma brecha onde o ato ilícito pode ser cometido sem detecção. Mais do que apenas a chance de realizar a fraude, a oportunidade abrange a capacidade de ocultar e encobrir as ações ilícitas.
- Racionalização O pilar final é essencialmente mental: trata-se das justificativas e desculpas internas que o fraudador cria para validar o comportamento desonesto perante sua própria moralidade. Embora seja um processo mais difícil para indivíduos com padrões morais elevados, a racionalização permite que o infrator transforme uma atitude criminosa em algo aceitável em sua mente. O objetivo subconsciente dessa etapa é preservar a autoimagem do fraudador, convencendo-o de que ele continua sendo uma “pessoa honesta”.
Compreender como o Triângulo da Fraude funciona é fundamental para auditores e peritos, pois revela como a vulnerabilidade de um sistema às fraudes é determinada pelo equilíbrio entre esses três componentes.
Ao avaliar os riscos de uma organização, o papel deste profissionais da contabilidade vai além de apenas checar números. É necessário avaliar criticamente como as falhas de controle criam a Oportunidade que, quando combinada com a Pressão do dia a dia e a Racionalização humana, resulta no crime financeiro.
Referências:
COENEN, Tracy . The Fraud Triangle. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6OaVrBl-uMs> Acesso em: 06 abr. 2026.
MURCIA, Fernando Dal-Ri. ‘Red flags’ para detecção de fraude contábil. Estado de São Paulo. Jan. 2023. Disponível em: <https://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/red-flags-para-deteccao-de-fraude-contabil/> Acesso em: 06 abr. 2026.
WIKEPEDIA. Donald Cressey. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Donald_Cressey> Acesso em: 06 abr. 2026.
Imagem: Gerada por IA