{"id":3698,"date":"2016-02-04T11:26:34","date_gmt":"2016-02-04T14:26:34","guid":{"rendered":"http:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/?p=3698"},"modified":"2016-02-04T11:26:34","modified_gmt":"2016-02-04T14:26:34","slug":"a-tribo-amazonica-que-nao-usa-o-conceito-de-numeros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/2016\/02\/04\/a-tribo-amazonica-que-nao-usa-o-conceito-de-numeros\/","title":{"rendered":"A tribo amaz\u00f4nica que n\u00e3o usa o conceito de n\u00fameros"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Povo Pirah\u00e3, uma tribo semin\u00f4made que habita o vale do rio Maici, na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, n\u00e3o tem o conceito dos n\u00fameros apenas o de &#8220;muito&#8221; ou &#8220;pouco&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Imagine viver em uma sociedade que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tem palavras para designar n\u00fameros, mas onde o pr\u00f3prio conceito de n\u00fameros \u00e9 inexistente. Ou seja, uma cultura onde &#8220;um&#8221;, &#8220;dois&#8221; ou &#8220;tr\u00eas&#8221; simplesmente n\u00e3o existem.<\/p>\n<p>Assim vive o povo Pirah\u00e3, uma tribo semin\u00f4made que habita o vale do rio Maici, na fronteira entre os Estados do Amazonas e Rond\u00f4nia, no norte do Brasil.<\/p>\n<p>A l\u00edngua falada pela tribo, o idioma pirah\u00e3, n\u00e3o possui palavras que sejam usadas para contar.<\/p>\n<p>&#8220;Eles est\u00e3o t\u00e3o afastados da sociedade industrializada moderna quanto se pode imaginar&#8221;, disse Daniel Everett, pesquisador da Bentley University, em Massachusetts, Estados Unidos. Everett morou com os Pirah\u00e3 como mission\u00e1rio e, depois, como pesquisador no campo da lingu\u00edstica.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo de conviv\u00eancia com a tribo, desenvolveu um interesse especial pela quest\u00e3o dos n\u00fameros &#8211; ou melhor, a aus\u00eancia deles &#8211; na cultura desse povo.<\/p>\n<p>Anteriormente, especialistas achavam que os Pirah\u00e3 tinham conceitos para &#8220;um&#8221;, &#8220;dois&#8221; e &#8220;muitos&#8221;, algo que n\u00e3o \u00e9 incomum em culturas desse tipo.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 medida que Everett investigava de forma mais sistem\u00e1tica, ia se dando conta de que esses indiv\u00edduos simplesmente n\u00e3o faziam contas precisas. &#8220;Ficou claro que n\u00e3o tinham nenhum tipo de n\u00famero&#8221;, disse o pesquisador \u00e0 BBC.<\/p>\n<p><strong>Muito e pouco<\/strong><br \/>\nEverett teve sua primeira suspeita quando observou a tribo repartindo o peixe.<\/p>\n<p>&#8220;Se algu\u00e9m chegava com tr\u00eas peixes, dois muito pequenos e um grande, o grupo se referia ao peixe grande com a palavra que eu julgava significar &#8216;dois&#8217;. Para indicar os dois peixes pequenos, diziam uma palavra que eu achava significar &#8216;um'&#8221;.Isto fez com que ele se desse conta de que, na realidade, os Pirah\u00e3 se referem a quantidades relativas &#8211; e n\u00e3o precisas.<\/p>\n<p>Everett teve sua hip\u00f3tese confirmada ap\u00f3s convidar o psic\u00f3logo cognitivo Ted Gibson para visitar a comunidade Pirah\u00e3. Gibson, que trabalha no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, fez um experimento simples.<\/p>\n<p>&#8220;T\u00ednhamos bobinas de fio id\u00eanticas e fomos colocando-as em frente a eles, uma a uma&#8221;, explicou Gibson \u00e0 BBC. Gibson e Everett foram adicionando os objetos at\u00e9 somarem-se dez bobinas.<\/p>\n<p>&#8220;Pusemos uma bobina e perguntamos a eles o que era aquilo. Eles responderam com uma palavra. Depois, colocamos mais uma e repetimos a pergunta. A resposta foi a mesma&#8221;, contou Gibson. &#8220;Cada pessoa dizia as mesmas palavras para quantificar os objetos &#8211; as que pens\u00e1vamos ser &#8216;um&#8217; e &#8216;dois&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Gibson inverteu o experimento, come\u00e7ando com dez bobinas e retirando uma por vez.&#8221;Quando t\u00ednhamos sete (bobinas), os \u00edndios come\u00e7avam a usar a palavra que ach\u00e1vamos ser &#8216;dois&#8217;. E quando cheg\u00e1vamos a quatro bobinas, todos come\u00e7avam a usar a palavra que pens\u00e1vamos ser &#8216;um&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Assim, os especialistas perceberam que os Pirah\u00e3 n\u00e3o estavam contando mas, sim, que os termos indicavam quantidades relativas de acordo com o contexto, que pode ser muito ou pouco.<\/p>\n<p>Ou seja, se voc\u00ea tinha dez bobinas e passa a ter cinco, dez bobinas s\u00e3o muito e cinco s\u00e3o pouco. Mas se voc\u00ea come\u00e7a com uma bobina e termina com cinco, ent\u00e3o cinco passa a ser muito.<\/p>\n<p>&#8220;Assim, os termos que a tribo possui indicam &#8216;pouco&#8217;, &#8216;alguns&#8217; e &#8216;muitos&#8217;. Todos relativos&#8221;, acrescentou o especialista.<\/p>\n<p><strong>Mundo sem n\u00fameros<\/strong><br \/>\nNo entanto, como pode uma comunidade sobreviver sem as palavras para 1, 2 e 3? Como voc\u00ea diz, por exemplo, que precisa de tr\u00eas peixes para o jantar? &#8220;Na verdade, pode-se chegar muito longe sem n\u00fameros em uma sociedade tribal como a dos Pirah\u00e3&#8221;, respondeu Everett.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos dizer que voc\u00ea quer dividir a comida. (Eles) simplesmente se sentam em volta (do alimento). Voc\u00ea tem a pessoa que corta o animal em peda\u00e7os e vai em c\u00edrculo distribuindo cada peda\u00e7o at\u00e9 que terminem. \u00c9 um tipo de divis\u00e3o sem n\u00fameros&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>De acordo com o especialista, trata-se de dividir sem n\u00fameros, compartilhar constantemente, sem prestar aten\u00e7\u00e3o ao que voc\u00ea ganhou. &#8220;E o escambo \u00e9 praticamente inexistente&#8221;, disse Everett.<\/p>\n<p>&#8220;(Nessa sociedade) n\u00e3o h\u00e1 a necessidade (de se contar com precis\u00e3o). Encontrei pirah\u00e3s que foram sequestrados, ainda pequenos, por comerciantes que navegam pelo rio. Foram criados fora da tribo e agora trabalham em lojas, falam portugu\u00eas fluente e fazem c\u00e1lculos matem\u00e1ticos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, n\u00e3o tem nada a ver com a habilidade cognitiva, \u00e9 simplesmente uma quest\u00e3o cultural&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de uma cultura que s\u00f3 tem conceitos para &#8220;pouco&#8221;, &#8220;alguns&#8221; e &#8220;muito&#8221; \u00e9 importante para determinar como os humanos em geral aprendem n\u00fameros. &#8220;Eles (os Pirah\u00e3) demonstram que as palavras para contar n\u00e3o s\u00e3o inatas, s\u00e3o um conceito que temos de descobrir e que ensinamos aos mais jovens.&#8221;<\/p>\n<p>Daniel Everett e Ted Gibson (@LanguageMIT) contaram sua experi\u00eancia com o povo Pirah\u00e3 ao programa de r\u00e1dio Discovery, do BBC World Service. O programa foi apresentado por Alex Bellos e produzido por Andrew Luck-Baker.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/bbc\/2016\/01\/31\/a-tribo-amazonica-que-nao-usa-o-conceito-de-numeros.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">BBC Brasil<\/a>, via Portal UOL<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Povo Pirah\u00e3, uma tribo semin\u00f4made que habita o vale do rio Maici, na regi\u00e3o amaz\u00f4nica,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3699,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[139],"tags":[],"class_list":["post-3698","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-matematica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3698"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3698\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3699"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}