{"id":1788,"date":"2010-09-21T08:27:00","date_gmt":"2010-09-21T08:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/2010\/09\/21\/ganhei-coragem\/"},"modified":"2010-09-21T08:27:00","modified_gmt":"2010-09-21T08:27:00","slug":"ganhei-coragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/2010\/09\/21\/ganhei-coragem\/","title":{"rendered":"Ganhei coragem"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;color:#000000;\"><strong>Ganhei coragem<\/strong><\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\">Por Rubem Alves<\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\"><\/span> <\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\">&#8220;Mesmo o mais corajoso entre n\u00f3s s\u00f3 raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece&#8221;, observou Nietzsche. \u00c9 o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, ledor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora quando a coragem chega: &#8220;S\u00f3 tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos&#8221;. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre que me calei: &#8220;O povo unido jamais ser\u00e1 vencido&#8221;: \u00e9 disso que eu tenho medo.<\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\"><\/span> <\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\">Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem pol\u00edtica. Mas Deus foi exilado e o &#8220;povo&#8221; tomou o seu lugar: a democracia \u00e9 o governo do povo&#8230; N\u00e3o sei se foi bom neg\u00f3cio: o fato \u00e9 que a vontade do povo, al\u00e9m de n\u00e3o ser confi\u00e1vel, \u00e9 de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de televis\u00e3o que o povo prefere.<\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\"><\/span> <\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\">A Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o sacralizou o povo como instrumento de liberta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Nada mais distante dos textos b\u00edblicos. Na B\u00edblia o povo e Deus andam sempre em dire\u00e7\u00f5es opostas. Bastou que Mois\u00e9s, l\u00edder, se distra\u00edsse, na montanha, para que o povo, na plan\u00edcie, se entregasse \u00e0 adora\u00e7\u00e3o de um bezerro de ouro. Voltando das alturas Mois\u00e9s ficou t\u00e3o furioso que quebrou as t\u00e1buas com os 10 mandamentos. E h\u00e1 est\u00f3ria do profeta Os\u00e9ias, homem apaixonado! Seu cora\u00e7\u00e3o se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras id\u00e9ias. Amava a prostitui\u00e7\u00e3o. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Os\u00e9ias pulava de perd\u00e3o a perd\u00e3o. At\u00e9 que ela o abandonou&#8230; Passado muito tempo Os\u00e9ias perambulava solit\u00e1rio pelo mercado de escravos&#8230; E que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Os\u00e9ias n\u00e3o teve d\u00favidas. Comprou-a e disse: &#8220;Agora voc\u00ea ser\u00e1 minha para sempre&#8230;&#8221; Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa par\u00e1bola do amor de Deus. Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta. Mas sabia que ela n\u00e3o era confi\u00e1vel. O povo sempre preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhes contavam mentiras. As mentiras s\u00e3o doces. A verdade \u00e9 amarga. <\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\"><\/span> <\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\">Os pol\u00edticos romanos sabiam que o povo se enrola com p\u00e3o e circo. No tempo dos romanos o circo era os crist\u00e3os sendo devorados pelos le\u00f5es. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os crist\u00e3os, de comida para os le\u00f5es, se transformaram em donos do circo. O circo crist\u00e3o era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em pra\u00e7as p\u00fablicas. As pra\u00e7as ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, te\u00f3logo moral protestante, no seu livro O homem moral e a sociedade imoral observa que os indiv\u00edduos, isolados, t\u00eam consci\u00eancia. S\u00e3o seres morais. Sentem-se &#8220;respons\u00e1veis&#8221; por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a raz\u00e3o \u00e9 silenciada pelas emo\u00e7\u00f5es coletivas. Indiv\u00edduos que, isoladamente, s\u00e3o incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cru\u00e9is. Participam de linchamentos, s\u00e3o capazes de p\u00f4r fogo num \u00edndio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indiv\u00edduos s\u00e3o seres morais. Mas o povo n\u00e3o \u00e9 moral. O povo \u00e9 uma prostituta que se vende a pre\u00e7o baixo. <\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\"><\/span> <\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\">Meu amigo Lis\u00e2neas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava dif\u00edcil porque o outro candidato a deputado comprava os votos do povo por franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo&#8230; Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. \u00c9 sobre esse pressuposto que se constr\u00f3i o ideal da democracia. Mas uma das caracter\u00edsticas do povo \u00e9 a facilidade com que ele \u00e9 enganado. O povo \u00e9 movido pelo poder das imagens e n\u00e3o pelo poder da raz\u00e3o. Quem decide as elei\u00e7\u00f5es \u2013 e a democracia &#8211; s\u00e3o os produtores de imagens. Os votos, nas elei\u00e7\u00f5es, dizem quem \u00e9 o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo n\u00e3o pensa. Somente os indiv\u00edduos pensam. Mas o povo detesta os indiv\u00edduos que se recusam a ser assimilados \u00e0 coletividade. Uma coisa \u00e9 o ideal democr\u00e1tico, que eu amo. Outra coisa s\u00e3o as pr\u00e1ticas de engano pelas quais o povo \u00e9 seduzido. O povo \u00e9 a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. <\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\"><\/span> <\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\">Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus Cristo foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrab\u00e1s. Durante a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade prolet\u00e1ria. N\u00e3o sei que outras coisas o povo \u00e9 capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alem\u00e3o amava o F\u00fchrer. O mais famoso dos autom\u00f3veis foi criado pelo governo alem\u00e3o para o povo: o Volkswagen. Volk, em alem\u00e3o, quer dizer &#8220;povo&#8221;&#8230;<\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\"><\/span> <\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\">O povo unido jamais ser\u00e1 vencido! Tenho v\u00e1rios gostos que n\u00e3o s\u00e3o populares. Alguns j\u00e1 me acusaram de gostos aristocr\u00e1ticos&#8230; Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de sil\u00eancio, n\u00e3o gosto de churrasco, n\u00e3o gosto de rock, n\u00e3o gosto de m\u00fasica sertaneja, n\u00e3o gosto de futebol (tive a desgra\u00e7a de viajar por duas vezes, de avi\u00e3o, com um time de futebol&#8230;). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de &#8220;boca-de-forno&#8221;, \u00e0 semelhan\u00e7a do que aconteceu na China.<\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\"><\/span> <\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\">De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconte\u00e7a \u00e9 preciso que um poeta entoe uma can\u00e7\u00e3o e o povo escute: &#8220;Caminhando e cantando e seguindo a can\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221; Isso \u00e9 tarefa para os artistas e educadores: O povo que amo n\u00e3o \u00e9 uma realidade. \u00c9 uma esperan\u00e7a.<\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;\"><\/span> <\/div>\n<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:Arial;font-size:85%;\"><span style=\"color:#000000;\">(<strong>Fonte<\/strong>: <\/span><a href=\"http:\/\/www.rubemalves.com.br\/ganheicoragem.htm\">Folha de S. Paulo, 05\/05\/2002<\/a>)<br \/> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ganhei coragem Por Rubem Alves &#8220;Mesmo o mais corajoso entre n\u00f3s s\u00f3 raramente tem coragem<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[162],"tags":[],"class_list":["post-1788","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1788","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1788"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1788\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1788"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1788"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1788"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}