{"id":1123,"date":"2011-10-23T12:04:03","date_gmt":"2011-10-23T12:04:03","guid":{"rendered":"http:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/2011\/10\/23\/quanto-mais-pobre-o-cidadao-mais-impostos\/"},"modified":"2011-10-23T12:04:03","modified_gmt":"2011-10-23T12:04:03","slug":"quanto-mais-pobre-o-cidadao-mais-impostos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/2011\/10\/23\/quanto-mais-pobre-o-cidadao-mais-impostos\/","title":{"rendered":"Quanto mais pobre o cidad\u00e3o, mais impostos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"> \t<em><span style=\"font-size: 12px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Por Odilon Guedes(*)<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"> \t<em><span style=\"font-size: 12px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">in Valor Econ&ocirc;mico<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">A partir da declara&ccedil;&atilde;o do megainvestidor americano Warren Buffett, a terceira maior fortuna do mundo, pedindo aumento dos impostos para os mais ricos nos Estados Unidos, v&aacute;rios milion&aacute;rios europeus tamb&eacute;m passaram a defender essa medida naquele continente. Nesse contexto, o presidente da Fran&ccedil;a, Nicolas Sarkozy, encaminhou ao Parlamento proposta para que os ricos que tenham renda anual acima de &euro; 500 mil passem a pagar uma sobretaxa provis&oacute;ria de 3%.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Esse fato &eacute; um bom motivo para discutirmos a carga tribut&aacute;ria brasileira, j&aacute; que nosso pa&iacute;s &eacute; um dos mais injustos do planeta na cobran&ccedil;a da tributa&ccedil;&atilde;o. Os mais pobres s&atilde;o quem paga, proporcionalmente, mais tributos no Brasil, e n&atilde;o os ricos.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Nesse contexto, &eacute; importante lembrar que h&aacute; um projeto de reforma tribut&aacute;ria na C&acirc;mara dos Deputados que permanece &quot;adormecido&quot;, ali&aacute;s, como ocorreu com todos os outros elaborados nos &uacute;ltimos anos no Brasil. O debate em torno desse assunto no pa&iacute;s acaba centrado em grande parte no aspecto da diminui&ccedil;&atilde;o dos impostos porque a carga tribut&aacute;ria &eacute; alta em rela&ccedil;&atilde;o aos servi&ccedil;os que o Estado oferece. Os que mais defendem a diminui&ccedil;&atilde;o dessa carga s&atilde;o os empres&aacute;rios, baseados no argumento de que pagando muitos impostos seus neg&oacute;cios s&atilde;o dificultados. Fica praticamente exclu&iacute;da do debate a maioria da popula&ccedil;&atilde;o brasileira e, principalmente, sua camada mais pobre &#8211; proporcionalmente a que paga mais impostos -, que n&atilde;o tem a menor ideia de quanto eles pesam no seu bolso.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Winston Churchil dizia que imposto sobre a heran&ccedil;a era infal&iacute;vel para evitar prolifera&ccedil;&atilde;o de &quot;ricos indolentes&quot;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Estudos desenvolvidos pelo Instituto de Pesquisas Econ&ocirc;micas Aplicadas (IPEA) comprovam claramente tal situa&ccedil;&atilde;o. Segundo um levantamento de 2008, pessoas cuja renda mensal familiar alcan&ccedil;ava at&eacute; dois sal&aacute;rios m&iacute;nimos comprometiam 53,9% de seus ganhos com o pagamento de tributos, enquanto que outras, com renda superior a 30 sal&aacute;rios m&iacute;nimos, comprometiam apenas 29%.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Outro dado de destaque nesse estudo do Ipea: um trabalhador que recebia at&eacute; dois sal&aacute;rios m&iacute;nimos precisava trabalhar 197 dias para pagar os tributos, enquanto outro que ganhava mais de 30 precisava de tr&ecirc;s meses a menos de trabalho, ou exatos 106 dias.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Essa situa&ccedil;&atilde;o ocorre porque cerca de 50% da nossa carga tribut&aacute;ria &eacute; indireta, isto &eacute;, incide sobre o consumo, atingindo indiscriminadamente toda a popula&ccedil;&atilde;o, independentemente da renda e da riqueza de cada um. A cobran&ccedil;a da maioria dos tributos vem embutida no pre&ccedil;o final das mercadorias. Vejamos um exemplo significativo:<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Um cidad&atilde;o que ganha R$ 1 mil por m&ecirc;s e coloca R$ 100 de gasolina no tanque do seu carro est&aacute; pagando R$ 53 de impostos. Enquanto outro que ganha R$ 30 mil e abastece o tanque pelo mesmo valor tamb&eacute;m paga os mesmos R$ 53, levando isso &agrave; injusti&ccedil;a apontada.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Nos pa&iacute;ses capitalistas desenvolvidos, ao contr&aacute;rio daqui, a maior parte da carga tribut&aacute;ria &eacute; direta e recai sobre a renda, a riqueza, a propriedade e a heran&ccedil;a. Esses crit&eacute;rios s&atilde;o mais justos do que os existentes no Brasil porque tributa diretamente quem ganha mais e tem melhores condi&ccedil;&otilde;es de pagamento.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Segundo dados da Organiza&ccedil;&atilde;o para Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Econ&ocirc;mico (OCDE), nos Estados Unidos a renda &eacute; respons&aacute;vel por 49% da carga tribut&aacute;ria. Se comparado com o Brasil, que &eacute; de 19%, naquele pa&iacute;s &eacute; 150% maior que a nossa. A m&eacute;dia desse tributo nos pa&iacute;ses pertencentes &agrave; OCDE &eacute; de 37%, quase 50% maior que a brasileira.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Sobre a propriedade a carga americana &eacute; 10%, cerca de tr&ecirc;s vezes maior que a brasileira, que &eacute; de 3%. Na OCDE a m&eacute;dia desse tributo &eacute; 6%, o dobro da nossa. Em rela&ccedil;&atilde;o ao consumo, ocorre justamente o inverso. Enquanto na carga tribut&aacute;ria brasileira esse tipo de tributos representa em torno de 47%, na americana representam 16% e na OCDE ela representa na m&eacute;dia, 37% do total. Esses dados confirmam que nos pa&iacute;ses desenvolvidos h&aacute; muito mais justi&ccedil;a tribut&aacute;ria que no Brasil.<\/span><\/span><br \/> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Dois exemplos ilustram as diferen&ccedil;as entre aqueles pa&iacute;ses e o Brasil. Na Inglaterra, por exemplo, o imposto sobre a heran&ccedil;a &eacute; cobrado h&aacute; mais de 300 anos. Quando da morte da princesa Diana, em 1997, os jornais noticiaram que o fisco ingl&ecirc;s cobrou de sua heran&ccedil;a o imposto de US$ 15 milh&otilde;es, metade dos US$ 30 milh&otilde;es deixados para seus filhos. Naquele pa&iacute;s, a taxa&ccedil;&atilde;o &eacute; apoiada at&eacute; mesmo pelos conservadores. <\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Segundo mat&eacute;ria da revista &quot;Veja&quot;, publicada em setembro de 2007, o primeiro-ministro ingl&ecirc;s Winston Churchil, que conduziu a Inglaterra na luta contra os nazistas, costumava dizer que o imposto sobre a heran&ccedil;a era infal&iacute;vel para evitar a prolifera&ccedil;&atilde;o de &quot;ricos indolentes&quot;. Por outro lado, no Brasil, o Imposto Territorial Rural &#8211; ITR arrecadado em todo o ano de 2007 e em todo territ&oacute;rio nacional, foi menor do que dois meses de arrecada&ccedil;&atilde;o do IPTU da cidade de S&atilde;o Paulo. Esses dados falam por si.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que esse &eacute; um tema delicado e j&aacute; causou ou foi pretexto para in&uacute;meras revolu&ccedil;&otilde;es. Dois exemplos s&atilde;o significativos. A data nacional da independ&ecirc;ncia americana, 4 de julho, faz lembrar que uma das raz&otilde;es que foram amadurecendo para o in&iacute;cio da guerra de liberta&ccedil;&atilde;o foi a cobran&ccedil;a de impostos como o Sugar Act (1764), do Stamp Act (1765) e o Tea Act (Lei do Ch&aacute;, 1773). No Brasil, a Inconfid&ecirc;ncia Mineira, tentativa de libertar o Brasil de Portugal, que resultou no enforcamento do her&oacute;i Tiradentes e no desterro das lideran&ccedil;as envolvidas no movimento, teve como motivo principal da revolta a &quot;derrama&quot;, isto &eacute;, a cobran&ccedil;a de impostos atrasados feita pelos colonizadores portugueses aos moradores de Minas Gerais.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Diante dessa realidade, &eacute; necess&aacute;rio e urgente abrir um espa&ccedil;o na m&iacute;dia e na sociedade brasileira para discutir a enorme injusti&ccedil;a que h&aacute; entre n&oacute;s e, consequentemente a necessidade de aprova&ccedil;&atilde;o de uma reforma em que os tributos diretos pesem mais que os tributos indiretos na composi&ccedil;&atilde;o da carga tribut&aacute;ria. Isso significaria uma das formas mais importantes de redistribuir a renda entre n&oacute;s.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Finalmente cabe uma pergunta: por que no Brasil os banqueiros, grande empres&aacute;rios do agroneg&oacute;cio, das empresas nacionais e multinacionais, n&atilde;o tomam a iniciativa que foi tomada pelos ricos nos EUA e na Europa, isto &eacute;, prop&otilde;em uma sobretaxa sobre seus ganhos?<\/span><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify\"> \t<span style=\"font-size: 14px\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif\"><em><strong>Odilon Guedes <\/strong>&eacute; mestre em economia pela PUC\/SP. Professor universit&aacute;rio e membro do Conselho Regional de Economia-SP. Foi presidente do Sindicato dos Economistas no Estado de S&atilde;o Paulo, vereador e subprefeito de S&atilde;o Paulo.<\/em><\/span><\/span><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Odilon Guedes(*) in Valor Econ&ocirc;mico A partir da declara&ccedil;&atilde;o do megainvestidor americano Warren Buffett,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[],"class_list":["post-1123","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c73-carga-tributaria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1123","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1123"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1123\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1123"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alcantara.pro.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}